Saturday, June 6, 2009

Uma vida

Lá fora, soprava um vento fraco incapaz de agitar os campos verdes, cobertos de flores. Os pássaros esvoaçavam pelo azul do céu, de vez em quando uma nuvem cobria parcialmente o sol, escurecendo um pouco o dia. As árvores vestiam-se novamente com folhas verdes, com esperança que desta vez o Outono não as levasse.

Olhei em meu redor, o comboio enchera-se. Alguém me tocara no ombro, olhei para trás. Era uma rapariga de estatura média, tinha cabelos castanhos, encaracolados. Supus que fosse de raça africana, pois o seu tom de pele era muito carregado.

- Posso? - Perguntou timidamente.

- Sim, senta-te.

-Gosto muito deste sítio,  a paisagem é maravilhosa. – Disse num tom de conversa

- Infelizmente não a posso apreciar, sou cega desde dos 9 anos…- respondeu um pouco triste

- Desculpa, não me tinha apercebido.

- Não faz mal, fui-me habituando a ser assim…diferente.

Lá fora a bela paisagem corria, o comboio tinha partido.

-Até aos 8 anos vivi em Moçambique com os meus pais, vim para Portugal com o meu padrinho para fazer um tratamento, pois a minha visão piorava de dia para dia. Contudo os médicos disseram que já não havia nada a fazer. O sol quente de Moçambique tinha se tornado meu inimigo. Apesar de tudo era o meu sonho lá voltar.

- E os teus pais continuam lá?

-Ninguém sabe. Em Moçambique os dias são vividos um de cada vez. Lembro me que todas as semana percorria muitos quilómetros com a minha mãe e com outras mulheres, para buscar água. Enquanto o meu pai ia com os outros homens trabalhar para campos, pertencentes a uns “senhores muito ricos” como me dizia a minha mãe quando eu era pequena.

-E tens saudades desses tempos? - Perguntei confuso

- Não tenho saudades de viver como lá vivia, pois tínhamos poucas condições. Mas tenho saudades da maneira como lá é encarada a vida. Vivemos um dia de cada vez. Cá as pessoas passam a vida a correr e não tem tempo para as coisas realmente importantes.

O comboio tinha parado numa estação, os verdes campos desapareceram. Lembrei-me que não sabia o seu nome. Olhei para a sua direcção, o banco encontrava-se vazio. Os meus olhos percorreram todo o comboio, mas não havia sinal dela. Olhei para fora, avistei-a já longe. Caminhava lentamente, como quem aprecia uma bela paisagem.

Sorri. Sentia-me uma criança numa história incompleta, onde ainda havia muito para ser vivido. De novo a paisagem corria contudo, agora aproveitava cada imagem, cada momento, cada segundo, pois apercebi-me que apenas viveria uma única vez.


 

 

Posted by su at 17:18:46
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